"Fugimos até o fim do continente, ali onde a..."
Fugimos até o fim do continente, ali onde a Europa se despede do sol e os barcos se aventuram mar adentro. Trata-se de Cabo de S. Vicente, onde parece que o farol apagou os ponteiros do relógio e que o vento ensurdecedeu os problemas. Renovamo-nos com o ar limpo, com a brisa do mar, com o bater das ondas nos confins do mapa físico peninsular. Sentamo-nos a olhar o atardecer, como quem envia recordações até o ocidente, com quem ao longe vê um grupo de jovens, sentados juntos a um farol, à beira de uma escarpa, a olhar para nós. E temos a sensação de que o mar é gigante e nós minúsculos, os que são golpeados pelo vento, como que a pedir explicações, de maneira que até nos custa manter o equilíbrio. Alguns pescadores lançam as suas linhas, quase quilométricas, até o fundo da escarpa. O fio de pesca mostra, no seu caminho, covas inventadas pela erosão, quase imperceptíveis a olho nú, mas nas quais as ondas se recriam, depois do contacto com as rochas, a cada vaivém do oceano.
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